O exercício da reflexão: um dos maiores desafios na formação e na atuação do professor

Penso, logo existo”. Essa famosa frase do filósofo francês René Descartes resume claramente o papel do verdadeiro professor. O professor, o educador que pensa, que reflete sobre sua prática, existe para si mesmo e para seus alunos. Existe para seus alunos porque eles se sentem percebidos e, consequentemente, o percebem. Percebem que, para esse professor, eles são protagonistas. E o professor existe para si mesmo, já que ele também se percebe. Consegue notar seus pontos fracos e fortes, onde acertou, onde errou e o porquê de suas atitudes. Percebe-se como um ser inteiro, possuidor de vivências e aberto a mudanças, progressos e aperfeiçoamentos.

Isso é ser um professor reflexivo. Aquele capaz de pensar sobre sua prática, analisá-la e questioná-la à luz da ciência, da ética, da política e das suas próprias experiências, a fim de responder aos dilemas e conflitos de sua profissão; é aquele que nunca se satisfaz, que jamais julga seu trabalho perfeito, concluído, sem possibilidade de melhorias. É aquele que está sempre em contato com seus pares com o intuito de uma relação dialógica; aquele que lê, observa, analisa e pesquisa para atender sempre melhor o aluno, sujeito e objeto de sua ação docente.

Refletir é, portanto, pensar sistematicamente e rigorosamente sobre uma ação ou ideia, levando em consideração o conhecimento prévio, as experiências pessoais e profissionais, os conhecimentos teórico e proposicional. Não deve ser um processo individual apenas, já que os comentários e discussões com os pares podem auxiliar na compreensão mais detalhada de uma situação. É uma ação que, quando ultrapassa os níveis técnicos e práticos e atinge o nível crítico, valoriza o crescimento individual e intelectual do professor e de seus interlocutores, influenciando sua atuação e, consequentemente, o processo de ensino-aprendizagem.

A reflexão leva o professor a repensar quem ele é e quem é o aluno que está na sua frente: o que ele quer, do que ele precisa, como ele aprende, e a identificar o caminho para chegar até ele _ o grande desafio da educação atual. E isso só será possível se ele se propuser um processo de busca e aprimoramento constantes. Quem reflete sobre o que faz, não se acomoda, não repete erros e se um mostra profissional de verdade, uma vez que consegue transformar a realidade, de modo que ela seja uma resposta a todos os seus questionamentos e aspirações.

Se acaso alguém me perguntasse o significado de ensinar e a definição de professor há exatamente 14 anos atrás, no momento em que terminava minha primeira graduação _ o curso de Letras _, minha resposta, certamente, seria: “Ser professor é transmitir conhecimentos. É trabalhar para que meus alunos aprendam tudo o que eu sei, toda a informação que acumulei ao longo de muitos anos de estudo. Ensinar é passar conteúdos através da leitura do livro didático, de exercícios de fixação. E, para verificar se todos aprenderam, basta aplicar uma prova cujas respostas devem estar prontamente memorizadas”.

Hoje, sabemos que essa forma de educação não é a mais recomendável se quisermos formar pessoas verdadeiramente condutoras de sua própria história e que façam a diferença na sociedade. Para esse fim, a verdadeira formação deveria se dar nas universidades que formam futuros educadores.

Antes de se dizer educador, aquele que se graduou nas licenciaturas deveria fazer uma autorreflexão. Se, nesse ato de pensar sobre sua formação, o formando se perceber completo, portador de todo conhecimento necessário para atuar em sala de aula, algo está errado em suas concepções.

Como dizia Paulo Freire, o ser humano é inacabado e deve se inserir num movimento permanente de busca. No caso do profissional e dos estudantes de Pedagogia, essa busca torna-se obrigatória _outro grande desafio. Para Cortella, cujo pensamento vai ao encontro de Freire, só é um bom ensinante quem for um bom aprendente, um bom estudante, alguém que tem uma postura crítica e sistemática perante os fatos, perante toda e qualquer fonte de informação.

Todo professor não deveria deixar de ser estudante. Estudar, estar em constante atualização, é parte intrínseca do ato de ensinar. O professor, ainda segundo Freire, deve ter uma postura curiosa diante do mundo, se o que quer é alunos curiosos diante do mundo. Se perguntarmos a qualquer professor que tipo de aluno ele quer formar, ele responderá “alunos críticos e que sejam protagonistas de sua própria história”. Ora, como formar alunos com essas caraterísticas se os próprios professores, muitas vezes, não as possuem? Como ensinar alunos a estudar se nem os próprios professores o sabem ou o querem fazer?

Em minha rotina em sala de aula da Educação Infantil, recebi, e ainda recebo, meninas estudantes de Pedagogia que não compreendem essa postura investigativa, provocativa, que um professor deve ter. Muitas dessas meninas sequer aprenderam a estudar, pois o ato de estudar também deve ser ensinado às crianças. Assim, o ciclo se repete.

Nós, professores, precisamos modificar nossa postura e perceber que o ato de estudar, de confrontar, de comparar, de criar e recriar ideias é condição essencial para que nossas crianças nunca deixem de pensar, de ser curiosas, de questionar e de querer aprender e crescer.

Anáile Abrahão

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